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Ninguém segura esta mulher!

Lissandra Oliveira nasceu em Padre Miguel, filha de Orozimbo e Nadir, membro de uma das famílias fundadoras da Mocidade Independente. Cresceu dentro do samba, atravessada por uma história que começa antes mesmo de seu nascimento. “É uma vida voltada para o samba desde a barriga da minha mãe”, resume.

Sua memória é construída a partir da quadra, dos ensaios, da convivência e do afeto. Lembra dos pais preparando tudo para a noite, reunindo os filhos e seguindo juntos para a agremiação. “A gente ficava esperando a semana toda para aquele dia chegar.” Chegavam cedo e saíam apenas de manhã, vivendo o samba em sua forma mais coletiva, entre compositores, amigos e familiares.

A figura da mãe atravessa essa lembrança com força. “Minha mãe era uma dama do samba, muito respeitada, muito querida.” Era ali, entre encontros, música e partilha, que o samba se consolidava como experiência de vida.

📷 Lissandra é pura entrega no microfone.

Dentro da estrutura musical, Lissandra destaca um elemento muitas vezes invisibilizado, mas essencial: o coro. Para ela, o coro é responsável por sustentar, equilibrar e dar identidade ao samba. “O coro dá o peso, dá o brilho, faz o samba crescer.” Mais do que acompanhar, ele constrói. É no coro que muitas vezes se ajusta o que ainda não está resolvido, onde se encontra a nota certa, o caminho melódico, a força coletiva. “Os compositores dizem que o coro bota o samba no lugar.” É uma engrenagem fundamental, feita de escuta, sensibilidade e construção coletiva.

Sua relação com os enredos e os sambas que eles dão origem é direta e profunda. Cada história exige uma entrega diferente, uma interpretação específica. Ao falar de figuras como Yiá Nassô e Carolina Maria de Jesus, Lissandra revela como o enredo orienta sua presença na avenida. “Eu não podia falar de qualquer jeito, tinha que ter uma voz imposta, forte, entender quem eram essas mulheres.” É a força dessas narrativas que define o tom, a intenção e a forma de cantar. O enredo, nesse sentido, não é apenas tema, é condução.

📷 Figura marcante nos coros das gravações de Samba, Lissandra é intérprete com DNA das escolas de samba

Ao assumir o microfone como intérprete principal da Unidos de Padre Miguel, dividindo o posto com Juan Briggs, ela inicia agora uma mudança de posição e responsabilidade. Sai do apoio, do chão coletivo, para o centro da condução do desfile. “Eu saí da minha zona de conforto.”

Ao mesmo tempo, carrega o acolhimento da comunidade como combustível. “A comunidade gritou meu nome. Isso me levantou num momento em que eu estava fragilizada.” Entre o medo e a confiança, ela reconhece a dimensão do desafio e a importância da entrega. “Esse friozinho é bom. É ele que faz a gente ir com humildade e querer fazer o melhor.”

Sua presença na avenida não é apenas técnica, é também espiritual e emocional. Ao cantar, ela entende o momento como um convite. “Quando eu canto, eu chamo as pessoas para cantar comigo.” É uma construção coletiva de emoção, onde público e intérprete se encontram. O retorno que recebe reforça essa dimensão. “Dizem que eu trago uma ancestralidade, uma luz.” E é nesse reconhecimento que ela também passa a se enxergar.

Ao falar com outras mulheres do samba, Lissandra deixa um recado direto. Defende a ocupação de espaços com talento, respeito e consciência de trajetória. “Que tenham mais mulheres. Que ocupem cada vez mais.” Para ela, é fundamental reconhecer quem veio antes, entender a base construída e seguir avançando. Suas referências atravessam nomes como Elza Soares, Jamelão e Dominguinhos do Estácio, mostrando que sua formação vem da escuta atenta e da observação contínua.

📷 Diva, né mores

Entre memória, técnica e emoção, Lissandra constrói sua trajetória como parte de algo maior. Uma voz que não canta sozinha, mas carrega consigo história, comunidade e continuidade. E que, mesmo diante do novo, segue guiada por aquilo que sempre esteve presente: o samba como caminho de vida.

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