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Entre o sonho e o enredo, um caminho

Diego Araújo, 37 anos, museólogo formado pela Unirio, é enredista há mais de 16 anos, sendo responsável pelos enredos de Mocidade Unida da Glória e Unidos de Vila Maria para o próximo ano. Apaixonado pelo carnaval desde a infância, construiu uma trajetória que atravessa diferentes cidades, escolas e funções, sempre guiado por uma relação profunda com a cultura popular. Do Rio de Janeiro a Manaus, de São Paulo a Macapá, seu percurso é marcado por deslocamentos, aprendizados e permanências. “Sou uma pessoa extremamente feliz pelo que eu faço, sou apaixonado pelo que eu faço. Era o meu sonho de criança”, conta.

Sua relação com o carnaval começa ainda na memória afetiva. “Minha primeira lembrança é assistindo Portela com a minha avó, deitado no colo dela”, lembra. A avó, portelense apaixonada, foi quem, sem saber, abriu esse caminho. “Eu acho que esse amor dela pela Portela me contagiou.” Entre tantas referências, esse momento permanece como um ponto de origem, um vínculo que atravessa o tempo e sustenta sua relação com o samba.

Sua entrada no carnaval profissional aconteceu cedo e de forma intensa. “O primeiro que eu assinei, no Bom das Bocas, em Três Rios, fui campeão”, conta. Mas é no Rio de Janeiro que um marco se estabelece com mais força. “Até hoje, a menina dos meus olhos é ‘Negra, pérola mulher’, do Império da Tijuca, de 2013, que me toca muito, porque foi o primeiro enredo que eu assinei no Rio como carnavalesco.” O enredo foi vitorioso e marcou não só um momento de conquista, mas de afirmação. “Aquilo ali foi muito fora da curva, foi tudo muito perfeito”, diz.

O título do Império da Tijuca em 2013 teve enredo com assinatura de Diego Araújo.

Desde então, acumulou passagens por escolas como Império da Tijuca, Unidos de Bangu, Em Cima da Hora, Acadêmicos do Sossego e Porto da Pedra, além de experiências em outros carnavais pelo Brasil. “Muito feliz de ter viajado o Brasil”, afirma, ao mencionar trabalhos em Três Rios-RJ, São Paulo, Santos, Brasília, Porto Alegre, Corumbá, Manaus e Macapá. Atualmente, atua como enredista da Presidente Vargas, no Amazonas, e também como conselheiro de artes na Ciranda Flor Matizada, em Manacapuru, onde integra um dos maiores festivais culturais da região. “Essa possibilidade de atuar nessas manifestações artísticas e culturais do nosso país me deixa muito feliz. Muito feliz mesmo.”

Mais do que uma função, o enredo, para Diego, é um processo. Não começa no papel, começa no encontro. “As propostas podem chegar de várias formas. Ou a escola já tem, ou o carnavalesco já tem, ou eu posso apresentar. E aí a gente vai construir com o que foi batido o martelo”, explica. Antes de tudo, ele faz questão de estabelecer uma distinção que orienta todo o seu trabalho. “Existe uma diferença de tema pra enredo. O tema é a motivação da pesquisa. O enredo é a narrativa”.

Diego esteve à frente da pesquisa dos enredos da Porto da Pedra entre 2023 e 2026.

O tema abre caminhos. O enredo organiza. Dar forma, direção, sentido. “O enredo é o argumento, é o desenvolvimento daquela narrativa que a gente constrói depois que entende todo o contexto”, diz. E essa construção não é aleatória. “É um texto que tem começo, meio e fim. Ele parte de uma lógica, tem seu ápice e o seu encerramento.” Ainda assim, ele não se prende a uma linearidade rígida. “Não necessariamente por linha do tempo, mas que seja bem definido na forma do desenvolvimento”.

O processo é também um exercício de escuta e seleção. Pesquisa, leitura, imagem, música. “Eu vou buscar referências bibliográficas, visuais, musicais… faço todo o levantamento.” Mas nem tudo entra. “Vou separando o que acho legal e descartando o que não vai acrescentar na narrativa.” O tempo, quando existe, aprofunda. Quando falta, desafia. “Tem escola que me dá uma semana, tem escola que me dá um mês. Quanto mais tempo, mais sólido fica.”

A estrutura do enredo surge desse acúmulo organizado. Primeiro, a justificativa, o argumento que sustenta tudo. Depois, a divisão em setores, onde cada parte da narrativa se desenha de forma mais direta. E, por fim, a sinopse. “A sinopse é um resumo poético. Ela vai para os compositores.” É nesse momento que o texto começa a atravessar outras linguagens. O enredo deixa de ser apenas palavra e passa a sugerir música, ritmo, intenção.

Esse trânsito entre linguagens se amplia no trabalho coletivo. “Pra fantasia e alegoria, a parceria com o carnavalesco é muito importante. A gente precisa estar com o mesmo discurso”, afirma. O enredo se desdobra em visualidade, em corpo, em forma. E no samba, ganha outra camada de interpretação. “É quando os compositores conseguem entender aquilo que a gente tá propondo.” Para isso, ele também constrói textos direcionados, buscando alinhar a leitura do enredo com a criação musical.

Mas Diego não se limita ao barracão ou à escrita. Desde 2024, também atua como comentarista na Rádio Tupi, integrando a equipe do Carnaval Total. Ali, sua escuta se desloca, ele observa, analisa, traduz para o público aquilo que também constrói por dentro. Entre a prática e a reflexão, amplia seu olhar sobre o carnaval, mantendo-se em diálogo constante com a cena.

Ao longo de sua trajetória, também transitou por diversas funções dentro da escola de samba, da harmonia à direção artística, acumulando experiências que atravessam o fazer coletivo. “Dentro da escola de samba eu só não fui intérprete”, diz, em tom leve. Essa vivência múltipla se reflete na forma como compreende o enredo, não como algo isolado, mas como parte de um organismo maior.

“Dentro da escola de samba eu só não fui intérprete”

Entre as referências que o atravessam, uma aparece com admiração declarada. “Quem me inspira muito nessa questão de enredo são as construções do João Gustavo Mello. Eu sou fanzaço”, afirma. Mais do que referência técnica, ele reconhece uma dimensão sensível nessa escrita. “O Guga tem esse punch da emoção, transborda sentimento.” É nesse diálogo entre estudo e sensibilidade que Diego também vai moldando sua própria forma de escrever.

No fim, para ele, o que sustenta um enredo não é apenas sua construção técnica, mas sua capacidade de alcançar o outro. “O enredo precisa fazer as pessoas acreditarem na ideia”, resume. E isso passa, necessariamente, pela forma como ele é contado. “Eu acho que o enredo não pode ter uma linguagem rebuscada demais que exclua as pessoas.” Pelo contrário, deve provocar curiosidade, despertar interesse, abrir caminhos de entendimento.

Diego foi o enredista da Bambas do Ritmo no seu 18º campeonato em Três Rios. “Nhô João: No rosário dos pretos, velho milagreiro e alma bendita do cafundó” foi o enredo que deu o título para a escola do Cantagalo.

Quando tudo se encontra, texto, música, visual, comunidade, o enredo deixa de ser projeto e se torna experiência. “Quando um bom enredo gera um bom samba, é a química perfeita”, diz. E é nesse ponto que o trabalho se completa, quando aquilo que foi pensado, pesquisado e escrito transborda para o corpo coletivo, ganha voz na avenida e permanece na memória.

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