Armênio Hertal, carioca de 60 anos, tem uma trajetória que atravessa diferentes caminhos antes de se consolidar no carnaval. Formado em administração, bancário e também ator, carrega uma relação antiga com a escola que hoje preside. Sua história com o Arrastão de Cascadura começa ainda na infância, muito antes de qualquer cargo. “Em 1978, foi um acontecimento ter uma escola do bairro desfilando com as grandes”, lembra.

Armênio é presidente do Arrastão desde 2019
A memória vem da televisão, da família reunida esperando o desfile, e do dia seguinte, quando a festa continuava na rua. Ele e outras crianças iam até a quadra para ver os carros alegóricos de perto e recolher pedaços da decoração. “A gente pegava espelhinho dos carros para botar na capa do bate-bola.” O carnaval, ali, já era experiência, pertencimento e construção afetiva.
Com o tempo, essa relação se manteve viva. O Arrastão desfilava também nas ruas do bairro, dividindo espaço com escolas tradicionais como Portela e Império Serrano. Era o carnaval de proximidade, vivido de perto, que ajudou a formar seu olhar e sua ligação com a escola.

Hoje o Arrastão faz um trabalho de recuperação da sua trajetória, após desfilar no Grupo de Avaliação em 2020
O retorno ao Arrastão, já na vida adulta, veio por iniciativa própria. Em 2004, Armênio procurou a direção da escola com o desejo de trabalhar. “Eu falei que tinha vontade de ajudar, e dali começou.” A partir daí, percorreu diferentes funções até chegar à direção de carnaval. Entre idas e vindas, se manteve próximo, acompanhando, aprendendo e acumulando experiência.
A presidência surge como consequência desse percurso. Sem outros candidatos em uma assembleia, decidiu assumir o desafio. “Foi uma consequência do trabalho e da vontade de ver a escola crescer.” Encontrou uma escola fragilizada, que havia caído até o grupo de avaliação, e iniciou um processo de reorganização. O primeiro ano foi de estruturação. No seguinte, veio o resultado. “A gente foi campeão. Depois de 28 anos, a escola voltou a ter um título.”
Na sequência, ainda conquistou o bicampeonato, recolocando o Arrastão em movimento.

De bloco à escola, o Arrastão tem como madrinha o Império Serrano.
Hoje, mais do que resultados, Armênio destaca a identidade construída na gestão. “Uma das coisas que mais me agrada é ouvir que a escola é acolhedora.” Para ele, esse reconhecimento é reflexo direto da forma como a administração se relaciona com a comunidade. Um espaço onde as pessoas se sentem bem também é parte do que sustenta o carnaval.
Ao mesmo tempo, ele reconhece os desafios. A distância entre a visibilidade da Sapucaí e a realidade das escolas que desfilam fora dela impacta diretamente na formação de base. “O glamour está lá, e eu entendo quem quer desfilar lá.” Diante disso, uma das principais preocupações passa a ser estruturar novos caminhos para dentro da própria escola, criando projetos que fortaleçam o vínculo com o território e garantam continuidade.
Entre as iniciativas, o Arrastão mantém projetos voltados para a comunidade, como aulas de funcional e defesa pessoal feminina, em parceria com programas sociais. Ao mesmo tempo, busca ampliar essa atuação com ações ligadas diretamente ao samba, como oficinas de bateria e formação de passistas. A ideia é construir, a partir da base, o futuro da escola.
O objetivo é claro. “A gente precisa de maior visibilidade.” Mais do que reconhecimento interno, há o desejo de reposicionar o Arrastão no cenário do carnaval. Um caminho que passa por organização, permanência e fortalecimento coletivo.

A volta da comunidade é um dos pilares do Arrastão pra tentar voltar à Sapucaí.
Entre memória, gestão e resistência, Armênio constrói sua trajetória como parte de um movimento maior. De quem viu a escola nascer no bairro, crescer, cair e se reerguer. E que segue, agora, trabalhando para que ela volte a ocupar novos espaços, sem perder aquilo que sempre a sustentou: a comunidade.









