Lia Amorelli carrega quase quatro décadas de carnaval no corpo, na voz e na escolha de permanecer. Jornalista, publicitária e desenhista industrial de formação, construiu uma trajetória profissional ampla, passando por diferentes setores, do serviço público à indústria e à comunicação. Mas é no carnaval que sua história encontra um sentido contínuo. “Eu tenho quase 40 anos de carnaval. Mais precisamente, se não me engano, são 37 anos, alguma coisa assim”, diz, como quem mede o tempo não em números, mas em vivências.
Sua origem vem cedo, ainda menina, na Mocidade Independente de Padre Miguel. Cresceu observando, atravessada pelo encanto e pela curiosidade. “Eu sempre olhei o carnaval com glamour, mas queria conhecer como ele era na sua essência.” O olhar, desde o início, não era apenas de quem assiste, mas de quem quer entender, entrar, fazer parte.

“Eu sempre olhei o carnaval com glamour, mas queria conhecer como ele era na sua essência.”
Com o tempo, esse desejo se transforma em percurso. Ritmista por mais de 20 anos, passou por diversas agremiações, entre o Grupo Especial, a Série Ouro e a Intendente Magalhães. Ocupou diferentes funções, diretora de carnaval, diretora cultural, assessora de imprensa, integrante de associações como a ASSORDHESERJ, além de experiências na Escola do Mestre Manuel Dionísio. “Eu fiz muitas coisas na avenida. Empurrei alegoria, ajudei equipes, fiz parte de tudo.”
Hoje, ocupa também um lugar afetivo e institucional como Diretora Cultural do Império da Tijuca, escola que atravessa sua identidade. Mas foi um outro território que redefiniu seu caminho.
A Intendente Magalhães entrou na sua vida por acaso e permaneceu. “A gente estava saindo da Sapucaí, tomando uma cerveja, e fomos convidados pra ir lá porque estavam precisando de gente. Eu botei o pé lá e nunca mais saí.” O que começou como presença virou compromisso. Com o tempo, virou propósito.

“Eu botei o pé lá e nunca mais saí.”
Foi ali que sua atuação como comunicadora encontrou direção. A partir da convivência e da escuta, ela percebeu um vazio. “O carnaval da Intendente é muito invisibilizado. E ele é a base de tudo. Se essa base não for bem estruturada, tudo que está em cima pode desabar.” A constatação vira ação. “Eu falei, vou contribuir de alguma forma. Vou usar as minhas profissões em prol de uma melhoria.”
É nesse contexto que nasce sua atuação nas transmissões. Influenciada e formada ao lado de Jorginho Leandro, a quem chama de mentor, Lia começa a ocupar a avenida também com a câmera. “Eu aprendi muita coisa com ele. Tive a honra de fazer transmissão tanto na Intendente quanto na Sapucaí.” O interesse já existia. “Sempre gostei de áudio e vídeo.” Mas é na prática que tudo se conecta.
Com poucos recursos e muita insistência, ela desenvolve uma forma própria de fazer. “Se você não tem estrutura para fazer um trabalho de alto nível, você tem que reduzir a sua estrutura, mas sem deixar a qualidade cair.” A solução veio na adaptação. “Eu optei pela transmissão mobile.” Celular na mão, equipamento reduzido, mobilidade total. Um formato que exige conhecimento técnico, estudo e domínio. “Eu fui estudar hardware, software, sinal, banda de transmissão, tudo pra conseguir fazer isso dentro dos nossos recursos.”

“São 8 a 12 horas em pé, sem parar. Depois que você entra ao vivo, você só sai quando a última escola termina.”
Mas a técnica é só uma parte. O corpo também entra em jogo. “São 8 a 12 horas em pé, sem parar. Depois que você entra ao vivo, você só sai quando a última escola termina.” A transmissão, para ela, precisa ser viva. “Você não pode ficar sentado. Tem que ser dinâmica. Você tem que ver tudo, sentir tudo e trazer isso pra dentro.”
E o que ela traz não é só imagem, é experiência.
Transmitir na Intendente é lidar com o imprevisto como regra. Falta de estrutura, ausência de energia elétrica, decisões de última hora. “Às vezes a gente descobre a estrutura dois, três dias antes. Como é que você programa uma transmissão assim?” Ainda assim, ela insiste. Reinventa. Continua.
Há também os episódios que revelam o cotidiano da avenida. “Já fiquei 20 minutos falando achando que estava ao vivo e não estava transmitindo nada.” Ou momentos de tensão extrema. “Transmitir debaixo de chuva torrencial, com água na canela, com equipamento, com fio, com medo de ser eletrocutada.” E, ao mesmo tempo, as pequenas cenas que escapam ao controle. “Teve uma senhora que começou a reclamar de uma dívida no meio da transmissão, ao vivo, e todo mundo ouvindo”, conta, rindo.
Por trás disso, há também um trabalho coletivo. Sua equipe, formada por seis pessoas, atua na produção de conteúdo, entrevistas e cobertura de campo. “Eu tenho plena confiança neles. Cada um sabe o que fazer.” Mas a transmissão ao vivo ainda é um território que ela conduz sozinha. Em paralelo, conta com o suporte técnico de um parceiro de engenharia que opera os bastidores em conexão interestadual.
“Ele controla tudo. Tenho plena confiança nele.”

“Eu tenho plena confiança neles. Cada um sabe o que fazer.”
Mais do que estrutura, Lia fala de posicionamento. “Ou você entra pra fazer um trabalho de qualidade, ou você não faz. Pra ser mais um, não vale a pena.”
No centro de tudo, o que a move não é a técnica, nem o reconhecimento. É o que passa pela lente. “O que mais me move é poder transmitir a alma do nosso povo.” E detalha. “O sorriso da arquibancada, a emoção do componente, a baiana carregando sua fantasia com orgulho, o ritmista dando o seu melhor, o casal defendendo o pavilhão.”

Lia vai onde o samba está
A transmissão, para ela, é ponte. Entre quem desfila e quem assiste. Entre o invisível e o visível. Entre o que o carnaval diz e o que ainda precisa ser ouvido.
E é também um gesto de retorno. “Se eu sou o que eu sou hoje, é por causa das pessoas que me acompanham.” Aos seguidores, àquilo que chama de família Ritmo Carioca, ela atribui o reconhecimento. “Nada no mundo paga isso.”
No fim, sua fala retorna ao coletivo. “O carnaval é uma cultura de coletivo, mas hoje muitas vezes é tratado de forma individual.” É nesse descompasso que ela atua. Não para corrigir sozinha, mas para sustentar outro caminho possível.
“Trabalho sem propósito não tem significado.”

“Trabalho sem propósito não tem significado.”
E o dela é claro. Manter viva a base, dar visibilidade ao que sustenta, e fazer do olhar uma forma de permanência.








